IBGE: enchentes de 2024 afetaram mais de 6,3 milhões de pessoas e danificaram 2,3 milhões de moradias no RS

Foto: Giulian Serafim/PMPA

As enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024 provocaram impactos sem precedentes sobre a população gaúcha, atingindo milhões de pessoas e comprometendo a estrutura de residências, serviços públicos e infraestrutura urbana. Os dados fazem parte da Pesquisa Especial sobre as Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul (PEERS), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que traça um amplo panorama das consequências sociais e econômicas do desastre climático.

Segundo o levantamento, aproximadamente 6,33 milhões de moradores foram afetados pelas enchentes em 133 municípios pesquisados. Nas áreas atingidas, cerca de 2,33 milhões de domicílios registraram algum tipo de dano estrutural, enquanto mais da metade dos moradores afirmou que suas residências sofreram prejuízos provocados pelas inundações.

Os impactos não se limitaram aos imóveis. Entre os domicílios afetados, as interrupções no abastecimento de água e energia elétrica atingiram dois terços das famílias, enquanto a falta de acesso à internet também figurou entre os principais transtornos enfrentados durante e após a tragédia.

A pesquisa revela ainda que os efeitos das enchentes ultrapassaram os danos materiais. Cerca de 67,5% dos entrevistados relataram prejuízos à saúde, principalmente em relação ao bem-estar físico e emocional. Além disso, dificuldades no convívio social, interrupções na rotina de trabalho, estudos e deslocamentos passaram a fazer parte da realidade de milhares de famílias.

Os números também evidenciam a gravidade da destruição provocada pelas cheias. Mais de 81 mil residências foram consideradas totalmente destruídas, enquanto outras 190 mil sofreram danos severos, formando um grupo que representa quase 12% dos imóveis atingidos com comprometimento estrutural de maior intensidade.

Nos bairros afetados, os reflexos permaneceram visíveis mesmo após o recuo das águas. Ruas e rodovias danificadas ou interditadas apareceram como o problema mais frequente, seguidas pelo acúmulo de lixo, imóveis destruídos ou isolados e falhas na iluminação pública. Em praticamente todas essas situações, os moradores que vivenciaram esses cenários também relataram elevados índices de danos em suas próprias residências.

As enchentes também provocaram mudanças significativas na dinâmica habitacional do Estado. De acordo com o estudo, cerca de 922 mil pessoas mudaram de endereço após o desastre, sendo que, em mais de um terço dos casos, a decisão foi diretamente motivada pelos impactos das inundações. Entre essas famílias, predominam moradores de menor renda, indicando que a população economicamente mais vulnerável enfrentou maiores dificuldades para permanecer em suas residências.

Mesmo meses após a tragédia, muitos gaúchos ainda percebem perda na qualidade de vida. Quase um quarto da população entrevistada afirmou viver atualmente em condições inferiores às existentes antes das enchentes, enquanto pouco mais da metade considera que sua situação permaneceu estável. Apenas uma parcela menor percebe melhorias em relação ao período anterior ao desastre.

O levantamento também mostra que ainda há espaço para ampliar a preparação diante de eventos climáticos extremos. Menos de 40% dos moradores disseram conhecer medidas preventivas para reduzir os impactos de futuras enchentes. Em relação às ações de reconstrução, 41% avaliaram positivamente os trabalhos realizados nas áreas atingidas.

Outro retrato apresentado pelo IBGE revela o perfil socioeconômico das regiões afetadas. A maioria dos moradores vivia em domicílios com renda mensal de até R$ 5 mil durante o período das enchentes. A população pesquisada é composta majoritariamente por pessoas brancas, com distribuição equilibrada entre homens e mulheres, além de uma participação semelhante de crianças e idosos nas áreas atingidas.

Durante as operações de resgate, mais de 652 mil domicílios ficaram inacessíveis. Em grande parte dos atendimentos, o transporte aquático foi essencial para retirar moradores das áreas inundadas. A pesquisa destaca ainda o protagonismo da sociedade civil: os voluntários participaram da maioria das ações de auxílio às famílias, superando inclusive a atuação dos órgãos oficiais de resposta, como Corpo de Bombeiros, Defesa Civil e Forças Armadas.

Os resultados da pesquisa reforçam a dimensão histórica das enchentes de 2024 e demonstram que seus efeitos continuam presentes na vida de milhões de gaúchos, tanto pela destruição da infraestrutura quanto pelos impactos sociais, econômicos e emocionais que ainda desafiam o processo de reconstrução do Estado.