Polícia indicia quatro suspeitos por esquema de falsas campanhas e eutanásia irregular de animais em Canoas

Foto: Miguel Noronha/Arquivo Polícia Civil

A Polícia Civil concluiu uma das principais etapas da investigação sobre um suposto esquema envolvendo proteção animal em Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre. O inquérito da Operação Carrasco foi encaminhado à Justiça com o indiciamento de quatro pessoas, suspeitas de participação em crimes de maus-tratos a animais, estelionato, associação criminosa e violação de sigilo profissional.

Entre os investigados estão uma ex-secretária municipal responsável pela área de Bem-Estar Animal, o marido dela, uma médica veterinária e uma policial civil. Conforme a apuração, o grupo teria promovido a eutanásia de cães e gatos que ainda apresentavam possibilidade de tratamento, ao mesmo tempo em que arrecadava recursos por meio de campanhas nas redes sociais destinadas, supostamente, ao custeio desses atendimentos.

As investigações apontam que as doações eram obtidas por meio de publicações que sensibilizavam a população com a situação dos animais. No entanto, segundo a Polícia Civil, em diversos casos os procedimentos prometidos aos doadores não eram realizados porque os animais eram sacrificados antes mesmo de receber o tratamento divulgado.

A segunda fase da Operação Carrasco, realizada em 15 de junho, cumpriu três mandados de prisão preventiva e 12 ordens de busca e apreensão. Durante a ação, foram recolhidos celulares, computadores e outros materiais que reforçam a investigação. Os policiais também encontraram um cão debilitado e sem as patas dianteiras, que, de acordo com a corporação, era utilizado em campanhas de arrecadação de recursos na internet.

As suspeitas começaram a ser investigadas ainda em setembro de 2025, quando a primeira fase da operação cumpriu mandados em endereços ligados à ex-secretária, incluindo a sede da antiga secretaria municipal, sua residência, um sítio utilizado por uma entidade de proteção animal e o imóvel da veterinária investigada.

Segundo a Polícia Civil, a principal suspeita atuava desde 2020 na captação de recursos por meio de campanhas virtuais. Ao longo desse período, teriam sido promovidas 549 arrecadações, que receberam contribuições de quase 15 mil pessoas e movimentaram cerca de R$ 672,6 mil.

A investigação segue em andamento para identificar o número de animais que podem ter sido vítimas do que os policiais classificam como “eutanásia financeira”. Conforme a delegada responsável pelo caso, Luciane Bertoletti, a equipe trabalha agora na análise dos registros de microchips para localizar animais desaparecidos e verificar quantos foram efetivamente sacrificados.

A análise do material apreendido também revelou mensagens que, segundo a Polícia Civil, reforçam a suspeita de que decisões pela eutanásia eram tomadas mesmo sem confirmação de diagnósticos que justificassem o procedimento. Em um dos episódios investigados, uma veterinária teria questionado a necessidade de realizar exames para confirmar uma doença antes da eutanásia, mas a autorização para sacrificar o animal teria sido concedida sem a realização dos testes.

Os investigadores afirmam ainda que, no mesmo dia em que a morte do animal foi autorizada, houve divulgação de uma campanha solicitando doações para financiar um tratamento que, na prática, não teria sido realizado.

Para a Polícia Civil, o caso revela uma suposta utilização da imagem de animais resgatados para conquistar a confiança dos doadores e obter recursos financeiros de forma fraudulenta. Mesmo após deixar o cargo público, conforme a investigação, a principal suspeita teria mantido as atividades por meio de uma associação instalada em um sítio.

Com o indiciamento concluído, o inquérito foi remetido ao Poder Judiciário, que analisará as acusações e decidirá sobre o prosseguimento da ação penal. A Polícia Civil informa que as investigações continuam para esclarecer a extensão do esquema e identificar outras possíveis vítimas e envolvidos.