
O primeiro ano do segundo mandato de Donald Trump foi marcado por uma guinada na política externa dos Estados Unidos, com a realização de bombardeios em pelo menos sete países: Venezuela, Síria, Iraque, Irã, Nigéria, Iêmen e Somália. As ações refletem a aplicação prática de uma nova doutrina de segurança anunciada pela Casa Branca, que prioriza interesses estratégicos e o uso seletivo do poder militar.
A mudança foi simbolizada por declarações do vice-presidente JD Vance durante a Conferência de Segurança de Munique, ao afirmar que havia um “novo xerife na cidade”. Para especialistas, o discurso indica o afastamento dos EUA do multilateralismo tradicional e uma reaproximação com uma lógica de liderança global baseada na força, semelhante à adotada durante a Guerra Fria.
Segundo a doutora em Direito Internacional Priscila Caneparo, o governo Trump demonstra desconfiança em relação às organizações internacionais e aposta em intervenções pontuais para garantir influência em regiões consideradas estratégicas. Embora a nova doutrina enfatize o não intervencionismo, ela admite o uso da força como instrumento para alcançar a paz e proteger interesses econômicos e geopolíticos.
Entre as operações de maior impacto está o ataque a instalações nucleares no Irã, em junho, conduzido por forças aéreas e navais com o objetivo de conter o avanço do programa nuclear do país. No Iêmen, os bombardeios miraram posições dos rebeldes Houthis, em resposta a ataques contra embarcações no Mar Vermelho, sob a justificativa de garantir o comércio internacional.
Ações semelhantes ocorreram na Síria e na Nigéria, com alvos ligados ao Estado Islâmico, enquanto outras operações buscaram conter grupos extremistas e consolidar áreas de influência dos EUA e de seus aliados. Para analistas, trata-se de uma estratégia de demonstração de poder, sem envolvimento prolongado em conflitos.
Na Europa, a postura americana é observada com cautela. Embora líderes evitem confrontos diretos com Washington, reconhecem o peso dos EUA como parceiro central em negociações globais, como o cessar-fogo em Gaza e as tratativas sobre a guerra na Ucrânia.
Ao mesmo tempo em que critica administrações anteriores por envolverem o país em guerras longas, Trump consolida uma política intervencionista própria, baseada em ações militares rápidas e objetivos estratégicos claros. Uma abordagem que redefine o papel dos Estados Unidos no cenário internacional e associa a ideia de paz a interesses de mercado e negócios.
