Venezuela concentra maiores reservas de petróleo do mundo, mas enfrenta colapso produtivo e disputa geopolítica

Foto: Isaac Urrutia/Reuters/Foto de arquivo

Com as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta, a Venezuela ocupa posição estratégica no mercado energético global. Segundo dados internacionais do setor, o país concentra cerca de 303 bilhões de barris, o equivalente a aproximadamente 17% das reservas mundiais — um volume quase quatro vezes maior que o dos Estados Unidos. Apesar disso, a indústria petrolífera venezuelana atravessa um período de profunda crise.

Após a captura do presidente Nicolás Maduro neste sábado (3), o presidente norte-americano Donald Trump afirmou que pretende abrir o setor petrolífero venezuelano à atuação de grandes companhias dos EUA. A declaração ampliou o alcance econômico da ofensiva americana, que até então vinha sendo justificada principalmente pelo discurso de combate ao narcotráfico.

Potencial elevado, produção limitada
Embora detenha reservas superiores às da Arábia Saudita e do Irã, grande parte do petróleo venezuelano é extrapesado, o que exige tecnologia avançada e altos investimentos para extração. A combinação entre infraestrutura deteriorada, falta de manutenção e restrições impostas por sanções internacionais impede que esse potencial seja plenamente explorado.

Dados do Instituto de Energia mostram que a produção venezuelana despencou de 3,7 milhões de barris por dia, em 1970, para apenas 665 mil barris diários em 2021. Em 2024, houve leve recuperação, com produção próxima de 1 milhão de barris por dia — menos de 1% da produção global.

Economia moldada pelo petróleo

A dependência do petróleo marca a história econômica da Venezuela desde o início do século XX. O país foi um dos fundadores da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e nacionalizou sua indústria em 1976, criando a estatal PDVSA. Ao longo das décadas, a receita petrolífera sustentou políticas públicas e programas sociais, mas reduziu a diversificação econômica.

Entre 1998 e 2019, mais de 90% das exportações venezuelanas vieram do petróleo. A queda na produção e o endurecimento das sanções internacionais agravaram a crise econômica e contribuíram para a hiperinflação, que atingiu níveis extremos em 2019.

Sanções e relações com os EUA

Historicamente, empresas norte-americanas tiveram papel central na exploração do petróleo venezuelano. Com o avanço das sanções, essa presença praticamente desapareceu, restando apenas a Chevron operando sob autorização especial. A PDVSA, por sua vez, sofreu cortes orçamentários, interrompeu investimentos e perdeu capacidade operacional.

Segundo a Reuters, em 2024 a estatal faturou cerca de US$ 17,5 bilhões com exportações, mantendo o petróleo como principal fonte de receitas do país. Parte dessas exportações foi direcionada à China, em acordos de petróleo em troca de empréstimos, ampliando a disputa geopolítica entre Washington e Pequim.

Petróleo no centro da geopolítica

Especialistas apontam que o interesse dos EUA no petróleo venezuelano vai além do discurso de segurança. O tipo de petróleo produzido no país é compatível com refinarias americanas e poderia ajudar a reduzir preços de combustíveis no mercado interno dos EUA.

Ao mesmo tempo, a dependência excessiva do petróleo torna a Venezuela altamente vulnerável. Estimativas indicam que as sanções internacionais causaram perdas superiores a US$ 226 bilhões em receitas petrolíferas entre 2017 e 2024 — valor superior ao PIB atual do país.

Apesar de possuir uma das maiores riquezas naturais do mundo, a Venezuela segue com uma das economias mais frágeis da América Latina, com seu futuro diretamente condicionado ao petróleo e às tensões políticas e geopolíticas que cercam o controle desse recurso estratégico.