
Quatro fundos de investimento investigados por supostas ligações com o crime organizado aparecem no centro de suspeitas de fraude envolvendo o Banco Master, segundo denúncia encaminhada pelo Banco Central (BC) ao Ministério Público Federal (MPF). De acordo com a apuração, esses fundos teriam participado de uma estrutura financeira destinada a inflar artificialmente ativos e permitir que recursos retornassem ao controle do proprietário da instituição, Daniel Vorcaro, e de diretores do banco.
O material enviado pelo BC ao MPF em novembro aponta que as operações suspeitas podem alcançar R$ 11,5 bilhões. Os fundos citados são administrados pela Reag DTVM, empresa do setor financeiro que já foi alvo da Operação Carbono Oculto, investigação que apura esquemas de lavagem de dinheiro ligados à máfia dos combustíveis e ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
Segundo os técnicos do Banco Central, os fundos teriam sido usados para criar a aparência de aportes de capital no Banco Master, dando a impressão de que o banco mantinha condições financeiras para seguir operando nos meses que antecederam sua liquidação extrajudicial. Na prática, os valores estariam baseados em ativos de baixa liquidez e com preços muito acima do real valor de mercado.
O modelo descrito na denúncia segue um padrão recorrente: o banco concedia empréstimos a empresas, que aplicavam os recursos em fundos de investimento; esses fundos, por sua vez, adquiriam ativos de difícil negociação por valores inflados; posteriormente, esses ativos retornavam, direta ou indiretamente, a fundos ligados ao próprio controlador do banco ou a pessoas próximas. Em um dos exemplos citados, um ativo avaliado em R$ 100 poderia ser negociado internamente por R$ 1.000, elevando artificialmente o patrimônio registrado.
A chamada “Notícia de Fatos”, elaborada pelo BC, aponta indícios de crimes contra o sistema financeiro nacional cometidos por administradores do Banco Master e da Reag, além de falhas graves no gerenciamento de riscos. Entre julho de 2023 e julho de 2024, o banco teria realizado operações de crédito corporativo que somaram R$ 11,5 bilhões, concentradas em poucos clientes e em desacordo com princípios básicos de liquidez, seletividade e diversificação.
Segundo a autoridade monetária, a manutenção deliberada desses ativos superavaliados teria como objetivo evitar reavaliações que revelassem a real situação financeira do banco. Os valores inflados teriam sido usados para justificar aportes de capital exigidos pela própria supervisão bancária.
Esse conjunto de informações embasou a decisão do Banco Central de decretar, em novembro, a liquidação extrajudicial do conglomerado Master, sob o argumento de esgotamento das alternativas de mercado e da existência de irregularidades graves que comprometeram a solvência da instituição.
O caso também chegou ao Tribunal de Contas da União (TCU). O relator do processo, ministro Jhonatan de Jesus, chegou a autorizar uma inspeção técnica em documentos do Banco Central, mas a medida foi posteriormente suspensa após reações internas e a abertura de um processo de mediação sobre o tema.
