Domingo, 16 de junho de 2024

Os Cegos Sem Castelo

Nossa cegueira vem de anos e este despretensioso (des)ensaio não pretende esgotar os motivos da nossas falhas ópticas. Quando Saramago escreveu sua obra-prima (Ensaio Sobre A Cegueira), em 1995, éramos mais felizes, jovens e seguros de nós mesmos. Mas o sábio escritor português via além, muito além do que se vê.

Como tudo chegava tarde no Brasil daqueles tempos, é bem provável que nos primeiros acordes do Acústico MTV dos Titãs, tivesse chegado em minhas mãos a primeira edição de Cegueira do Saramago, muito melhor do que o bom filme homônimo lançado 13 anos depois da obra literária.

De que jardim eu vou cuidar depois dessa água toda que não lavou. Sim, levou almas, sonhos e nossa capital já nem tão valorosa e nada leal. Entreguista. Entregada às traças, aos bucéfalos e apedeutas que destruíram os cantos mais sinceros de nossa tristeza que esse mundo não merece.

Eu acredito que precisaremos de óculos permanentemente para treinar nossos olhos depois de tanto desver você. Tua beleza nos cegou irremediavelmente. Com isso. nosso imaginário não bastou e o serpentário ressuscitou. Toda epidemia tem seu fim. Mas a cegueira é infinita.

O olhar obtuso, ambíguo e dissimulado das castas mais abastadas me causa asco. Me deem olhos de ressaca, me deem mais umas doses, Me deixem sozinho em um quarto, com minha solitária e minha vontade de usar um cinto, cada vez mais apertado no meu braço. A dor de esquecer que não te vemos mais mãe. Ó mãe natureza, tende piedade de nós.

Rodrigo Ramos

Rodrigo Ramos

Rodrigo é uma mistura. Do esporte à literatura. Do beatnik ao emo. Das linhas mal escritas às camisetas surradas. Do Direito não exercido ao jornalismo por amor, luta e ideal. Enfim, esse cara nem sempre sou eu.