Segunda-feira, 27 de maio de 2024

No caminho de Jack existia um Cadillac

Eu ainda penso no velho Dean Moriarty. Ainda lembro de quando Truman Capote disse que Kerouac e sua trupe não eram escritores e sim datilógrafos. Todos os mistérios envolvendo a cultura beat que leva até hoje muitos ao desespero e traz o medo do desconhecido, permeia a busca incessante de Jack Kerouac por iluminação nas estradas dos Estados Unidos.

O clássico On The Road supostamente escrito em apenas quatro dias e quatro noites, embaladas por alucinógenos e café, é uma ode ao desbunde, a beleza da maluquice, aos que ficam naturalmente à margem da normalidade, da nossa neurotipicidade normativa. Não é obra de Erasmo. Mas certamente é um elogio para a loucura.

Percorrer o país de ponta a ponta, pedindo carona, entrando ilegalmente em trens de carga, desejando Feliz Natal em plena Páscoa e outras questões que provam ser a normalidade algo superestimado nas rotas que a vida nos proporciona. Quem nunca sonhou em desbravar os lugares mais distantes de sua terra natal?

Se for necessário roubar uns carros, cometer pequenos delitos, para seguir em frente que assim seja. A alma beatnik é maior que os pudores de nossa moral cotidiana. Certamente os beats são do tipo de pessoa que comemorariam queimando roupas em missas e funerais. A transvaloração de todos os valores pregada por Nietzsche foi vivida de fato por Kerouac, Ginsberg, Cassady et catrefa.

Curiosamente ou não no final de sua vida Kerouac se tornou um prócer reacionário, pensamento muito diferente daquilo que viveu e defendeu. Mas é compreensível, ele queria buscar beatitude e se continuou inquieto enquanto libertino, negar os valores concebidos por ele mesmo, também era um caminho natural.